19 janeiro 2006

IKEA

O anúncio, com pompa e circunstância do plano de investimentos de cerca de 450 milhões de euros em Portugal por parte da IKEA, merece reflexão. À primeira vista, parece uma vitória para a API e para o País. 450 milhões de euros de investimento, criação total de 1650 postos de trabalho, 90% da produção fabril destinada à exportação. Bravo.
Mas, se olharmos melhor para o anúncio da IKEA, vemos que o grupo abrirá mais duas ou três lojas em Portugal. A grande fatia do investimento total em Portugal irá para a abertura das lojas comerciais. A grande fatia do emprego total criado será nas lojas comerciais. Que irão fazer concorrência às empresas portuguesas, obrigando algumas a fechar e atirando pessoas para o desemprego. Até aqui, nada a dizer, é a lei do mercado a funcionar. Mas, e infelizmente existe sempre um mas, a IKEA irá beneficiar de avultados incentivos fiscais e financeiros, já admitidos pelo ministro. Cerca de 20% do investimento total. Ou seja perto de 100 milhões de euros. Além disso, a IKEA anunciou também a abertura de lojas na vizinha Galiza, em Vigo e na Corunha.
Ao situar a fábrica no norte de Portugal, vai criar 200 empregos. A maior parte da produção irá direitinha para a Galiza. E irá fazer concorrência às empresas portuguesas que hoje exportam mais de cinquenta por cento da sua produção para essa mesma Galiza. Quantos empregos não irão desaparecer no Alto Minho e na Zona de Paços de Ferreira? 200, 500, 1000? Não é difícil de prever que o saldo será francamente negativo.
A questão é simples. Não seria mais vantajoso para Portugal investir nem que fosse 50 milhões de euros na promoção das marcas Portuguesas na Galiza, em toda a Espanha e na Europa? O aumento das vendas, a afirmação do produto e qualidade Portuguesas não criaria mais de 2000 empregos a prazo? O verdadeiro desafio não é o de criar marcas e produtos Portugueses de qualidade capazes de se exportarem e venderem na Europa? Não é assim que se cria riqueza? No entender da API e do primeiro-ministro parece que não. Infelizmente, a capacidade do nosso Pais continua a ser a de oferecer salários baixos e elevados benefícios fiscais e financeiros às empresas estrangeiras. Que continuam a destruir as nossas empresas, as nossas marcas, os nossos produtos. Definitivamente, abdicamos de ser um País. Somos um rebanho de pessoas apático, pastando paulatinamente nos cardos que os outros nos deixam. Há vinte e cinco anos que o mesmo bando de rapaces nos (des) governa, e nós, resignados, aceitamos como se de um desígnio divino se tratasse.

NDS

4 Comentários:

Às 08:40 , Anonymous Anónimo disse...

Concordo plenamente e como é importante dar ao pessoal diferentes pontos de vista, com sua licença, linkei este artigo.
Parabéns.
http://desgovernos.blogs.sapo.pt/

 
Às 09:51 , Blogger H. Sousa disse...

Tem toda a razão! Andamos a ser (des)governados por uma pandilha da pior espécie. Vendilhões da pátria porque se vendem também. Prostitutos é o que eles são. O pior é que nos levam todos para a prostituição também.

 
Às 14:32 , Blogger francis disse...

Esta história do IKEA é como o outro: "Atira-me areia para os olhos que eu gosto"
Os portugueses são mesmo assim, meu caro. Elegem sempre os mesmos f.d.p. quem sabe, para se entreterem depois no NOSSO passatempo favorito: Criticar os Governos que NÓS próprios elegemos.
Não é preciso ser bruxo. Vais tudo acontecer como dizes.

 
Às 15:55 , Anonymous Valter disse...

Parabéns pelos textos!

Muito seriamente, eu acho que o nosso grande problema é não haver ninguem que fale assim, que apresente explicações concretas e não apenas discursos demagogos, que esteja atento e seja observador. E não político que anda no seu carro de luxo, com batedores pela frente a afastar o trânsito.

O país está em recessão e querem construir um TGV?!?!?
As nossas linhas de alfa-pendular nem sequer estão preparadas para serem exploradas à sua velocidade máxima. É ridiculo!
O preço que pagamos por uma viagem de comboio Porto - Lisboa!

Mais uma travessia sobre o tejo para quê? Mais uma autoestrada? Eu conheço Estradas nacionais em Portugal que são metade em alcatrão metade em terra batida!

É obvio que a maioria das pessoas não vao querer usar estas nacionais! É quase como obrigarem-nos a pagar portagens.

Isto é triste!

Vamos fazer uns cartazes de desagrado e começar a colar pelas ruas, a ver se abrimos os olhos a estas pessoas que só querem é novelas.
Em discurso simples e directo, revoltado e fundamentado.

counterstriked@hotmail.com

 

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